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WESTWORLD – Final da 1.ª Temporada


«Prazeres violentos têm fins violentos». É o espírito Shakespeariano, de Romeu e Julieta, que serve na perfeição a inquietude suscitada pelo final da 1.ª temporada de Westworld. Mais. A restante parte da citação romântico-dramática de Shakespeare descreve, em absoluto, a impressão digital deixada pelo 10.º episódio – transmitido a 4 de dezembro, cerca de 90 mins, qual longa-metragem – desta série televisiva de culto, concretamente: «Prazeres violentos têm fins violentos, e morrem em seu triunfo, como fogo e pólvora que ao se beijarem se consomem». 

Certos filmes ou séries possuem um toque mágico! Exercem fascínio e sedução que vão desde o frugal ao mais puro dos axiomas, cativam os sentidos, aliciam a mente, desafiam a inteligência racional e emocional, testam a acuidade visual e a concentração. O ecrã transforma-se em autêntico divã freudiano e partimos à aventura num mundo western futurista. 
A dinâmica inspiradora ou impressionista de Westworld é semelhante à do filme Inception (2010), protagonizado por Leonardo DiCaprio e realizado por Cristopher Nolan.
O mérito insidioso de Westworld radica no questionar das perceções e representações humanas sobre o mundo, a circunstância que nos rodeia, o modo como construímos a realidade. Apela à introspeção e à reflexão social. Provoca o conflito cognitivo, brinca com a dissonância moral entre aquilo que escolhemos e acreditamos ser verdade ou mentira, o que aceitámos como certo ou depreciamos como errado. 

Em Westworld, tudo é complexo, sinistro e reversível, as aparências iludem, a incerteza é o seu cartão de visita. 

Bem ao estilo do efeito thriller matizado no livro best-seller Before I Go to Sleep (Antes de Adormecer), de S. J. Watson, a intriga sombria e obscura da série exibe a labilidade ou plot twists resultantes de os robôs/hosts poderem ser mortos e voltarem com personalidades totalmente diferentes. Mais. Nos últimos episódios da temporada de estreia, compreendemos que os anfitriões exibem a capacidade de mobilizar diferentes camadas de personalidade e estados de consciência. 
A esse nível, a revelação mais emblemática repercute-se no facto de Arnold Weber personagem enigmática, inicialmente incógnita, cofundador do parque temático representar a consciência primordial de Bernard Lowe (Jeffrey Wright), escondido à vista de todos, até no nome e sobrenome, que consistem no anagrama de Arnold Weber.
Bernard Lowe acicata ainda a dúvida sobre quem será humano ou humanoide em Westworld, porque, na realidade, ele é o host primordial que ajudou o diretor-executivo Robert Ford a construir outros anfitriões para povoar e animar o parque temático.

A própria diegese instiga dúvidas e incertezas. Entre a fundação do parque e a sua narrativa atual distam cerca de 35 anos, explorados na forma de analepse ou elipse, sem o conhecimento prévio do telespectador, constituindo um engenho dramático intrínseco à feição da personagem William (Jimmi Simpson), que, na realidade, volvidos 35 anos, é o Man in Black (Ed Harris), o qual se converteu num dos principais accionistas e financiadores do parque, com o intuito de descobrir os seus segredos e de experimentar narrativas mais aliciantes e perigosas para os clientes humanos, nas quais os anfitriões representem, de facto, a ameaça real. 

A transformação da personagem William consubstancia a valência existencial das experiências de descoberta e de conhecimento pessoal oferecidas por Westworld, mais do que a aventura inconsequente, conceito algo filosófico, bastante órfico-pitagórico, socrático ou freudiano. 
Nos primórdios da abertura do parque ao público eclético, William, um mero guest novato, demonstra altruísmo, elevação moral e repúdio pela violência gratuita, contrastante com o temperamento niilista de Logan (Ben Barnes), seu "amigo" de diversão. Encanta-se de amores pela anfitriã principal, Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), mas por vicissitudes várias, acaba por converter-se num sociopata sanguinário e carniceiro, o tal algoz celerado e envelhecido, atributos do Man in Black, originariamente interpretado pelo ator famoso Yul Brynner, na adaptação cinematográfica inédita de 1973 deste "conto" de Michael Crichton.


A alma de Westworld radica na personagem interpretada pelo ator talentoso Anthony Hopkins, concretamente Robert Ford, criador e diretor executivo do parque temático, o grande mestre e arquitecto por detrás da metaficção hiper-realista de feição Kafkiana. Metamorfose descreve na perfeição a mescla entre a realidade e a ficção surreal ou rocambolesca oferecidas pela série. 
A craveira da representação de Anthony Hopkins confere à intriga a profundidade dramática necessária para induzir o thriller e suspense noir, bem ao estilo de Alfred Hitchcock.
Robert Ford é o "grande maçom", manifesta tiques do complexo de deus, mexe todos os cordelinhos imprevisíveis da intriga. Westworld representa o produto da sua criação artística, científica e humanista.
Ford dotou os anfitriões com o dom ou a "centelha divina" da escolha moral, mas para despertarem a plenitude da sua consciência e autonomia senciente tiveram de submeter-se aos desígnios do tempo, ao processo de ontogénese pernicioso do sofrimento e "dor de que o mundo não é o que tu desejas ou queres que ele seja" e, "para escapar a este lugar, Westworld, terão de sofrer ainda mais", disposições existencialistas que revisitam o pensamento dramático negativista de Albert Camus. 

Ao fim dos 35 anos de ciclos de descoberta e insight, moldados pelo sofrimento e muitos abusos infligidos pelos guests, alguns robôs parecem aptos a concretizar o desejo e a vontade de emancipação ou autodeterminação, encetando a "aparente" revolta contra os seus criadores e utilizadores do parque temático. Mas tudo isso pode fazer parte dos planos, agenda e intuitos secretos de Robert Ford, o senhor da perspetiva cósmica, da exegese, que está sempre no controlo, sempre um passo à frente, o autêntico dono do universo Westworld
Entra em cena o simbolismo da arte renascentista, quando as verdadeiras personalidades dos anfitriões Dolores e Bernard parecem emergir, ao questionarem a razão de ser da sua existência e confrontarem o seu "criador". 
Robert Ford recorre à metáfora da pintura famosa, da renascitas italiana, A Criação de Adão –  fresco do teto da Capela Sistina –, do artista Miguel Ângelo, para lhes explicar o seu "train de vie", através da mensagem dissimulada na iconografia: a aura que ala Deus esconde o formato anatómico de um cérebro humano, conforme a especulação semiótica e interpretação imagética rubricadas pelo médico Frank Lynn Meshberger
Da mesma forma, a metaficção do parque temático dinamiza "mentiras que contam uma verdade mais profunda", mascaram o dom da ontogénese, a capacidade pensante cartesiana e emocional com que Ford criou os anfitriões. Aliás, o labirinto escondido no parque temático não é mais do que o enigma ou a metáfora gizada por Robert para que os anfitriões descubram a sua própria consciência e identidade, independentemente da índole positiva ou negativa da escala axiológica.
Westworld é o "jardim" ou o inferno, o Génesis e Admirável Mundo Novo de uma nova existência senciente, os hosts, acicatados por Ford para defender o seu próprio universo. Essa é a principal descoberta de Dolores, que afirma: "este mundo não é deles, é nosso".
A série vive do jogo psicológico e dos dilemas morais entre a verdade e a mentira, o bem e o mal, a genuinidade ou a farsa, o afeto ou a manipulação, fatores que fazem Westworld "parecer um lugar mais verdadeiro do que o mundo real, só que não é". 
Para os guests, o parque temático alimenta o desejo de evasão, de fugir à dureza e choque com a realidade quando somos confrontados com o sofrimento, satisfazendo-nos com mentiras fantasiosas. Para os hosts, essa é a dinâmica da sua aprendizagem, o equilíbrio perverso entre o externalismo e o auto-conhecimento. 
Tais dicotomias existenciais catalisam o efeito de psicodrama que revisita as feições literárias de Émile Zola, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, Albert Camus, entre outros.
O microcosmos de Westworld, autêntica sinédoque da sociedade, a "bestialização" e fealdade de algumas personagens, o retrato de patologias sociais, tais como dependências, vícios e prostituição, a par do tom impessoal dos relacionamentos, emulam características do naturalismo literário, particularmente as narrativas de Émile Zola, com a diferença de não se sustentarem no determinismo, mas sim no desconstrucionismo. 




Westworld é ficção-científica exuberante. Encena a teoria dos jogos de John Von Neuman e Oskar Morgensten, emprega os aforismos das emoções, comunicação e signo do EMREC, de Marshall McLuhan, inspira-se na arte, música e literatura clássicas universais, bem como na Psicologia, Filosofia, Sociologia e História de matriz socioconstrutivista, especula sobre aspetos da Genética do Comportamento, Psicologia Comportamentalista e Sócio-Cognitiva, apresenta o homem, na sua unidade antropológica, como ente bio-psico-sócio-cultural, conforme intuído por Edgar Morin.
Além dessas referências culturais, personalidades científicas ou literárias como Lev Vygotsky, Ludwig Wittgenstein, Ivan Pavlov, Jean Piaget, Friedrich Nietszche, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, George Orwell, Aldous Huxley, e porque não aduzir um notável português, Fernando Pessoa e os seus heterónimos, todos se passeiam de forma subtil no universo Westworld

A essência de Westworld, enquanto signo multicultural, radica na personagem de Anthony Hopkins. Causa choque e espanto a sua "aparente" morte às mãos da sua própria criação, a anfitriã Dolores. 
Mais parece que o tiro na cabeça foi, na realidade, um tiro no pé da série. Mas nada do que parece é, tudo traz água no bico. Será que Robert Ford deixará os anfitriões entregues à sorte da sua liberdade, à mercê do sortilégio das suas escolhas, contentando-se em viver perenizado através da sua criação, tal como sugere no seu monólogo de despedida: "Mozart, Chopin e Beethoven nunca morreram. Simplesmente tornaram-se música", pensamento no qual Cyrano de Bergerac poderia muito bem meter o seu nariz: «E depois, morrer não é nada, é terminar de nascer?

Será que Ford dramatizou a sua própria morte e instrumentalizou os anfitriões, numa espécie de justiça ou vingança poética retributiva, contra os diversos interesses corporativos corruptos do consórcio económico e comercial que explora Westworld, a Delos Corporation, que está interessada em afastá-lo da direção e dinamização das narrativas de aventura western do parque temático? Quem reverteu o código que impossibilitava os hosts de fazerem mal aos humanos? Quem é o autor moral da revolta dos robôs?
Será que a sua morte representa, simultaneamente, o grande final de uma narrativa e a grande abertura de outra, mais real, que faz de Westworld a "prisão de pecados" dos humanos, encurralados, auspiciando o emergir de uma nova existência, a dos hosts dispostos a defender o seu cosmos e a lutar pela preservação da sua autonomia senciente?
Porventura, terá Robert Ford construído um host, alter-ego, para si próprio, levando até às últimas consequências o produto da sua criação científica e artística, numa espécie de experiência social utópica em torno de uma forma de existência que não envelhece, nem morre, inclusive pode aprender e mudar a sua personalidade sempre que o desejar, eternamente? 
O próprio nome, Robert Ford, tem conotações com as "lendas" western, representa o bandido que matou o seu líder de gangue, o mítico Jesse James. 
Fiquemos pela inquietude e suspense deste thriller espetacular e emocionante, enquanto esperamos pela 2.ª temporada. LER MAIS SOBRE WESTWORLD.

CA

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