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NEVER SMILE BEFORE CHRISTMAS – (Crónica)

Olho-te no espelho ainda embaciado pelo calor do banho matinal. Um sorriso tímido vai ganhando contornos mais definidos. É hoje a primeira vez. A verdade é que a água tépida não serviu para te despertar do mundo dos sonhos. É hoje, sim, é hoje! Os dias de sol ajudam a prolongar a estadia nesse universo mágico. E está um belo dia de sol.
O sorriso inunda agora todo o espelho. O toque do sino da igreja rouba-me à contemplação. Vamos lá, são horas! Não podes facilitar... Um professor nunca chega atrasado, lembras-te? E um professor estagiário está lá religiosamente uma hora antes. Meia hora para rever a matéria da aula. A outra meia para pedir aos deuses que aquele insuportável bando de bárbaros que lhe vai irremediavelmente aparecer pela frente não faça muitos estragos em tudo o que uma sala de aula pode compreender, professor incluído. Talvez dirija as suas preces a algum padroeiro do professor estagiário. Será que existe? É provável. De qualquer forma a sua existência daria muito jeito.
Acho que não estou a esquecer-me de nada. Never smile before Christmas. Mas é melhor verificar a pasta. O estojo, o bloco de notas, o manual de português e o dossier. Tudo em ordem. O dossier praticamente vazio, aliás como convém ao professor no início do ano. Quando era aluna, causava-me espanto ouvir a grossura de certos dossiers, atirados para cima da secretária, logo nas primeiras aulas. Pareciam ter muitos anos, mas não tantos como certos professores que irremediavelmente me apareceram à frente. Pois é, parece que o ensino é um conjunto de destinados encontros. Ou de desencontros?
Novamente o sorriso e o espelho, pela última vez, antes de sair. Estou morta por descobrir o que escondem as fotografias do meu «bando de bárbaros». E suponho que eles têm alguma curiosidade em conhecer a figura ausente no nome da «stôra», indicado no horário. Será o primeiro contacto. Never smile before Christmas. O primeiro de muitos.
A sala de professores torna-se excessivamente pequena nos intervalos grandes.
- A colega está mesmo com ar de quem vai dar uma aula pela primeira vez!
- Não se aflija, vai ver que não custa nada. Também o que é que custa com vinte e poucos anos?
- Eu tenho sempre muita pena dos estagiários... É que eles não estão preparados para lidar com os delinquentes que actualmente frequentam as nossas escolas. Antigamente...
Tento afastar-me da conversa que entretanto se espalhara pelas mesas, sofás e cantos da sala. Never smile before Christmas. O ar tinha-se tornado demasiado pesado. Agarrei no livro de ponto, preparando assim uma fuga educada e discreta.
- A colega não vai já para a sala, pois não? Olhe que o pavilhão fecha durante o intervalo grande. Para além disso, esse excesso de zelo pode trazer-lhe problemas...
- O excesso de zelo e de simpatia! Olha, a mim não me vêem eles os dentes... que é essa merda? É de trombas até ao Natal para eles não me lixarem muito a paciência durante o resto do ano! E tu devias fazer o mesmo. Tão novinha e sem experiência... E depois ainda tens a merda das aulas assistidas... Vais ser avaliada e tudo...
­- Daqui a uns tempos ela vai fazer como toda a gente... Sai uns minutitos depois do toque para não ter de aturar as barbaridades dos alunos nos corredores. Por falar nisso, sabem que aqui a nossa colega mais nova tem uma turma complicadita. Tive de os aturar durante três anos. Credo! São do piorio! Era o céu quando eles decidiam faltar. E volta e meia vinha sempre algum para a rua! Assim a coisa sempre ficava mais sossegadita. Tou a dizer isto, mas não a quero assustar... Never smile before Christmas.
 
Felizmente tocou e eu pude sair justificadamente daquele estranho small world.
Reconheci algumas das caras que me esperavam à porta da sala. Outras faziam cair por terra as supostas qualidades dos que agora se revelavam péssimos fotógrafos. Tento abrir a porta. Não sei o que se passa, mas não estou a conseguir. Se calhar é da chave ser nova. Educadamente, peço ao colega da sala do lado que acabara de chegar para tentar abrir a porta com a chave dele, explicando que não tinha conseguido fazê-lo com a minha.
- Com certeza, colega. Sabe que as chaves novas dão sempre alguns problemas. Todos os anos acontece isso. Depois vai ver que funciona às mil maravilhas.
Agradeci e entrei. Não pude evitar o sorriso que tal episódio suscitara. Never smile before Christmas. O sorriso foi ainda maior quando dei comigo a estabelecer analogias entre o professor estagiário e a chave nova, enquanto o meu “bando de bárbaros” se acomodava, sem grande espírito invasivo, nos seus lugares, esperando ansiosamente pelas minhas primeiras palavras. Never smile before Christmas. Recuperei o ar reservado e prudente que constava nos planos da minha primeira aula e, tentando controlar um ligeiro nervosismo, dei início à Lição n.º 1.
Que se lixe o Never smile before Christmas! Esta mínima perseguiu-me durante alguns meses. Por vezes, aparecia timidamente nas conversas que fui tendo com assumidos especialistas em ‘invasões bárbaras’. Outras, esforçadamente dissimulada num artigo de jornal ou em algum capítulo de um livro da especialidade. Não, não desperdicei a sabedoria de algumas vozes da experiência! O Natal não é quando o Homem quiser? Pois bem, limitei-me a antecipá-lo.
Sabiam que os bárbaros têm um sorriso fascinante?

* Texto publicado originalmente na revista electrónica Primeir@Prova, www.letras.up.pt/deper/primeiraprova
AA

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