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AVATAR 3D – James Cameron

 
AVATAR não é apenas mais um filme. É o filme! Em todos os pormenores e domínios é completo e quase perfeito. Claro que me refiro à versão 3D. Comecemos por esse ponto. Durante todo o filme conseguimos sentir e ver a profundidade de toda a cenografia, em todos os takes, frames, tudo está concebido ao mais ínfimo detalhe para impressionar os sentidos. Igualmente impressionante são os traços ambientais que parecem transportar-nos para dentro do próprio cenário, sejam as paisagens ou a envolvência da geologia – montanhas flutuantes – fauna e flora do planeta PANDORA ou todas as cenas de combate e acção que se desenrolam. Para os mais sensíveis a profundidade dos cenários com altos declives e altitude chega mesmo a fazer vertigens. Simplesmente fantástico!
Referência ainda para os soberbos hologramas, menus e interfaces electrónicos dos computadores da era
de exploração espacial em que o filme se desenrola, o que de facto confirma a predilecção e gosto que a ficção científica em geral e o realizador James Cameron em particular tem pelo espaço interestelar.

Mas AVATAR está longe de se esgotar nos seus efeitos especiais. A longevidade e motivação continua do filme matizam-se em toda a estória e intriga que o sustentam. Para os mais atentos as influências que o storyboard revela, assim como as questões e problemas antropológicos que o filme levanta, constituem tema para ocupar umas boas horas de conversas de café.

Porquê do nome do planeta ser PANDORA? É óbvio que a referência remete-nos para a Mitologia grega. Mas qual a relação entre a as especificidades do planeta, a intriga e conflito que nele tem lugar, com as nuances da descrição mitológica?
A alusão e correlato ao universo da informática, robótica e electrónica é constante. Os NA'VI são uma raça de indígenas que vive em perfeita harmonia com a natureza, tendo a peculiaridade de conseguirem ligar-se fisicamente a todos os seres vivos do planeta através de um interface biológico com características electro-físicas que mais se assemelham a um USB. Os NA'VI são caçadores e como tal tem ao seu dispor uma espécie de cavalos, mas sobretudo dinossauros voadores – os IKRANS
– que só voam com a pessoa que estabelecer essa tal ligação e conexão única, exclusiva e especial.

Intrigante é a dimensão espiritual dos NA'VI. Profundamente panteístas e com um religiosidade de cunho natural e influências totemistas e nirvanistas. Veneram uma divindade – EYWA – que se consubstancia numa árvore sagrada – clara alusão ao livro de GÉNESIS – com a qual – mercê do interface biológico descrito, mas também de uma espécie de anêmonas que representam os espíritos ancestrais – conseguem ter uma relação física. Desse modo, é ultrapassada a barreira física da crença e da fé, visto que não é uma espiritualidade transcendente mas sim algo que para além da mente abrange as dimensões do sentir, ver, ouvir, tocar. Merece igual destaque os elevados padrões morais e consciência ecológica dos NA'VI. A honra e a fidelidade são princípios e valores altamente respeitados em todas as suas manifestações, desde a amorosa à fraternal. Os NA'VI vivem num misto de organização tribal com traços civilizacionais. É como se vivessem no neolítico ou era jurássica com todas as vantagens tecnológicas do mundo contemporâneo!

O filme miscigeniza natureza com tecnologia e espiritualidade numa osmose perfeita. Jake Sully acaba por transferir a sua consciência e espírito para o seu corpo AVATAR, por via de um ritual que em termos de cerimonial é profundamente espiritual e ao nível do processo conecta de forma intrínseca e umbilical tecnologia e natureza. Idiossincrasia perfeita! O corpo humano de Jake Sully tem de se ligar à árvore mãe/sagrada – EYWA –, assim como o seu corpo avatar. Ligação física, genética, biológica. O resultado é a migração do espírito de um corpo para outro. Criativo sem dúvida!

No fundo a estória parece opor a tecnologia (os humanos) à natureza (os NA'VI). Bastante pós-moderno sem dúvida ou no dizer de Edgar Morin o homem é um ente bio-sócio-cultural. Como tal tem de perceber que a sua missão não é dominar e explorar a natureza a seu belo prazer, mas sim protegê-la, visto que em última análise, o próprio Homem faz parte dela. A "nossa" obrigação é proteger e salvaguardar o planeta e nesse acto estamos a preservar-nos a nós mesmos. Os humanos – sobretudo a facção militar e corporativa – são vistos como os exploradores e destruidores que querem obliterar a natureza para mineração do planeta, e do outro lado temos os NA'VI que personificam a defesa da natureza e a convivência em plena harmonia. No meio estão os cientistas humanos que na sua demanda e curiosidade holística com os seus AVATARS são a ponte diplomática e de diálogo entre as duas raças. No final saí vitoriosa a natureza.
Acima da tecnologia e da natureza em claro confronto e rivalidade a solução parece ser o paradigma Shakesperiano, para resolver grandes rivalidades nada como uma grande "estória" de amor, o que eventualmente sucede entre Jake Sully (Humano) e Neytiri (nativa Omotokaya).

Com uma banda sonora fora de série, efeitos visuais assombrosos e uma intriga muito interessante e consistente, sem sombra de dúvida que os 6 euros do bilhete e as 2h40 minutos de duração valem mesmo a pena.


CA

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