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UM AFFAIRE COM A DIGNIDADE – (Reflexão)

Amor e sexualidade são eminentemente uma prática, uma forma de relacionamento e interacção... Pela erogenia e qualidade hedónica que proporcionam somos induzidos a fantasiar e cogitar diversos fétishes... uns mais arrebatadores e ousados que outros.
Mas para lá da libido existe a realidade... Com efeito, quer pautemos essa prática pelo idílio ou pela luxúria, pelo puro platonismo ou frívola lascívia, é certo afirmar que para além da realização, fruição e prazer, há um importante lugar para o respeito e para a dignidade no trato entre pessoas.

Amor e a sexualidade constituem algo de profundo, do mais intimo e autêntico que pode existir. São o derradeiro reduto e âmago onde caiem todas as máscaras e convenções, formando a acção pela qual as pessoas inequivocamente demonstram em verdade quem são e como são, mesmo que finjam!
A actualidade faz transparecer que neste universo tudo se tornou efémero, vago e inconsequente, quase caricatural... Ninguém parece conseguir assumir posturas e tomar posições de integridade... Torna-mo-nos incapazes de sermos fiéis a gostos e preferências...

Quem sabe influências do fast food e pronto a vestir?! Com alarve aplaudimos a revolução e emancipação que conduziu à suposta libertação sexual e afectiva do(s) género(s). De igual modo, todos consagramos o direito humano à orientação sexual mas é por demais evidente que na sociedade perpassa a mais perfeita anomia e desorientação.
Desagrilhoa-mo-nos do casamento por conveniência, desquita-mo-nos do "cortejo" fins amore, vociferamos aos quatro ventos o free-love como pilar basilar do desenvolvimento do indivíduo mas conseguimos criar algo de melhor?!
Hoje, amor e sexualidade parecem não edificar nada figurando apenas como instrumentos de destruição e implosão... A "decadence" e o "hardcore" triunfaram como regra e esses são atributos demasiadamente explosivos para augurarem algo de bom.

Amor, afectos, sexualidade constituem um prática... Como qualquer prática é deveras difícil incutir uma moral ou orientação. O ser humano está condenado a viver o conflito entre o prazer e o compromisso... Contudo, tratando-se de uma área vital e sensível do carácter, personalidade e temperamento, não pode ser abandonada ao assolo do(s) capricho(s), impulsos e pulsões aleatórias... Um pouco de consciência e reflexão é aconselhável...
Mas como humanos que somos, colocar uma moral nessa prática cria-nos um conflito interno... O ser humano está condenado a viver nesse desequilíbrio entre o prazer e o compromisso... Podemos ver esse conflito como paradoxo e renúncia ou como desafio e oportunidade...

Vivemos numa sociedade de informação, consumo e ritmo(s) acelerado(s) mas será desejável transpor esses valores para a vida intima, sentimental e sexual ?!
Estamos sempre informados mas não procuramos conhecer ninguém de forma autêntica. O lado genuíno perdeu-se. Sou da opinião que o lirismo, o romantismo, o idealismo ainda terão o seu lugar nos dias correntes se assim o desejarmos. A faceta materialista exacerbou-se. A logística é infindável, lubregue e descabida. Consumimos tudo, todos e em grande escala, sendo certo que consumi-mo-nos ainda mais.
O cerne da problemática parece situar-se no facto de colocarmos desmesuradamente a ênfase na experimentação... Desejamos e queremos ter uma grande base de experiências para determinarmos comparações, opções em aberto e avaliar tudo e todos. Frequentemente analisamos tão mal e avaliamos ainda pior, tomando recorrentemente as opções erradas, para em seguida desiludir-mo-nos, chegando à triste conclusão de que afinal não era preciso experimentar nem metade!

E que dizer do ritmo?! Afinal que período de tempo é necessário para nos decidirmos por alguém?! ou devemos pôr validade a um relacionamento amoroso?! Um momento, uns minutos, uma noite, um dia, uma semana de namoro, um casamento de 3 a 5 anos no máximo! A libertação de repente já não soa tanto a liberdade.
É deveras ridículo aquilo que estamos a perder como pessoas e o quão redutor tornamos a sexualidade e o amor votado a um mero momento nú e frio como no cinema, banal e tratado de ânimo leve, aliás, espelho da forma como usualmente nos tratamos uns aos outros!

Tudo porque quisemos negar que o amor, a sexualidade e os afectos constituem algo de diferente e especial. A meu ver se alguém perde essa orientação de nada adianta vaticinar emancipação, revolução ou libertação, pois, irremediavelmente fica entregue às grilhetas do abuso e desrespeito...
Como diria o humanista Giovanni Pico della Mirandola na sua obra Discurso sobre a Dignidade do Homem: O prazer é lícito mas o prazer é digno!


CA

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