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ENTRE FILMES E OUTRAS COISAS – 2013

A antecâmara da gala das estatuetas douradas é sempre um momento óptimo para dar aso a uma tertúlia cinéfila... 
Os helenos tinham a Tragédia e a Odisseia... Os congéneres romanos Sátira e Epopeia... Os cristãos medievais Gesta e Trovas... A belle époque Óperas variadas... Nós por cá vamos tendo Hollywood e a 7.ª arte... Não discuto a utilidade dos propósitos e das funções sócio-culturais do cinema... Mais ou menos catársis, mais ou menos drama ou apenas entretenimento pelo entretenimento... Cada um poderá percepcionar e expressar sublimações existenciais e lubricidades patentes na escolha de assistir a este ou àquele filme... É certo que a noite dos Óscares não mitiga nem acaba com a fome, nem tão pouco o trabalho de representação e ganhos de carreira de atores, atrizes e realizadores soluciona os flagelos sociais tout court... 
Tudo se resume a uma questão de papéis e representações culturais...  Neste legado comum denominado de Civilização Ocidental, na(s) Idade(s) Média(s) tivemos cristãos zelosos da sua cristandade... Bem vistas as coisas uns eram mais cristão que outros, outros assim-assim e outros tantos, nem tanto... Na Renascitas bravos humanistas mestres da escrita e da pena... Durante o(s) Absolutismo(s) a Corte foi espectáculo para todos os súbditos... Na grande Revolução Atlântica com epicentro na Revolução Francesa, bravos revoltosos tornaram-se cidadãos... Do(s) Nacionalismo(s) às Grandes Guerras, fustigados patriotas e soldados enformaram os homens da civilização...
Tudo isto para afirmar que em cada era existem configurações sócio-culturais e grupos de pertença dominantes... Hoje vivemos na era da multimédia e como tal, o espectador assume um lugar padronizado de relevo, enquanto consumidores de todas as artes audiovisuais que, fascinam, seduzem, instruem e entretêm... Nessa condição os níveis de fruição variam de pessoa para pessoa, mas todos a partilhamos em algum momento...
Todo este enquadramento para falar da minha opinião valorativa daquilo que considero ser os melhores filmes entre os mais recentes...

Argo realizado e protagonizado por Ben Affleck é o meu eleito como melhor filme. Conta a história em forma de drama e documentário, de um plano audacioso e no mínimo criativo gizado por um agente da CIA, para resgatar e extrair em segurança, um grupo de cidadãos norte-americanos durante a crise de reféns do Irão (80's)... Não tem tiros nem sangue a jorros ou grandes e violentos efeitos especiais, mas o suspense e a acuidade com que prende a atenção é brilhante.



Na mesma linha realista e de documentário, Zero Dark Thirty encena a captura e assassinato do Ás da rede terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden, esbolhando toda a trama e contornos perversos da inteligence americana (CIA) nas Administrações Bush e Obama. Situando-se muito na linha daquilo que é conhecido como História do Tempo Presente acaba por pecar ao ser um pouco extenso. Penso que Argo com um temática semelhante acaba por ser melhor como filme.
ZDT/0:30 revela as capacidades e competências de uma grande atriz Jessica Chastain no papel principal como Maya, sendo intrigante o facto de ter sido uma mulher a gizar o "search and destroy" do maior cérebro terrorista do Islão radicalizado

Noutra linha cronológica Lincoln de Steven Spielberg acaba por desiludir um pouco. Um filme algo extenso e excessivamente centrado nos pormenores biográficos (biopic) e debate político-sociológico relacionado com o abolicionismo, durante a Civil War Americana. Claro está que Daniel Day-Lewis é soberbo no papel principal.

Na mesma baliza temporal DJANGO Unchained de Quentin Tarantino é espectacular. Dentro das lógicas de Tarantino, apresenta no estilo de Western Spaghetti uma intriga Shakespeariana sobre o escravo Django (Jamie Foxx) libertado pelo amigo, mentor e caçador de recompensas Dr. King Schultz  representado brilhantemente por Cristoph Waltz , formando parelha para libertar a amada de Django que se encontra cativa/escrava do latifundiário Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). O elenco é do melhor e as cenas viscerais de sangue e acção são tanto cómicas como perturbadoras e explosivas.
As personagens exibem aquele travo psicológico perverso próprio da modelação conferida por Tarantino que, em função dessa característica consegue abordar de forma igualmente pérfida o tema capcioso da escravatura e do tráfico esclavagista, perfeitamente personificado na personagem Stephen (S. L. Jackson) o negro com papel de branco, o manda-chuva dos outros escravos, 1.º conselheiro de mão do seu amo fazendeiro Calvin Candie.

   

Filme igualmente histórico, mas na categoria de musical, Les Misérables é um bom entertainer, revelando afincados cuidados com os pormenores factuais. À imagem da obra literária do autor Vitor Hugo, os dilemas e os aspectos melancólico-fleumáticos são pontos fortes, reproduzindo a mensagem vitalista e romântica de que se houver compreensão e manifestação de amor uns para com os outros não é preciso verter sangue em revoluções porque todos os seres humanos se situam num plano de redenção. 
Nota de destaque para a personagem Gavroche (Daniel Huttlestone) o míúdo que cantando a solo, acciona a parte mais sanguínea do filme, roubando a cena por completo. 
Apraz-me bastante o papel desempenhado por Hugh Jackman um ator com muita pinta associado mais a filmes de acção e aventura e em especial à personagem Wolverine do universo X-Men, mas que se revela muito capaz neste papel dramático como Jean Valjean
Convém ainda destacar a ambição deste filme inerente ao facto de muitas das cenas terem sido gravadas e reproduzidas ao natural, isto é, directamente do ambiente de filmagem ou cenário sem grandes correcções de estúdio apesar de os atores não serem cantores profissionais.

Fora de grandes nomeações, mas sendo um "must" para quem gosta de acompanhar boas estórias do início ao fim, figura The Hobbit: An Unexpected Journey. Compreende-se que já não seja novidade, mas para quem seguiu a trilogia The Lord of The Rings esta prequela também desenvolvida em forma de trilogia tem de constar nas escolhas do espectador.

CA

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