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HUGO 3D – Martin Scorsese

  
Criei um certo receio ao investir em filmes 3D, porque na verdade uma boa parte desse entretenimento não o justifica, ainda mais em "época de austeridade"... Mas como em tudo na vida a curiosidade da expectativa sublimou o "temor" pecuniário e enalteceu a vontade!

Scorsese  – o realizador de Hugo 3D – é um exemplo de classe e erudição... Os seus filmes eivam características de épica e elegância... Pura "classe"... Mas qual seria o resultado de convergir os aspectos mais clássicos da cinematografia com a sua inovação técnica do 3D digital mais recente?
O resultado é Hugo 3D... Mas a sua validade e fascínio induzidos – para lá da mestria de Scorsese e do soberbo suporte 3D – residem na "estória"...

Hugo é um menino que vive no Paris dos anos 20, e que fica orfão... Filho de um relojoeiro, o seu universo e cosmovisão centram-se no mecanismo dos artefactos, lugares e pessoas... A metáfora técnica que o filme apresenta é humanista expressando-se no vitalismo do argumento: "Se o mundo é um mecanismo gigante logo ninguém é uma peça sobressalente!"... Sem sombra de dúvida uma temática bem presente em pleno séc. XXI. A atualidade evidencia o domínio da anomia de consciências, o descomprometimento e clivagem entre gerações, atingindo níveis de indignidade... Borbulha a revolução individualista que enfada e enferma a sociedade em aspectos de solidão e depressão...

Retomando o contexto histórico do filme, é pertinente referir que os anos 20 foram o mundo do efémero. Não existiu a coragem de enfrentar no imediato os traumas da 1.ª Guerra Mundial e na perspectiva do passado e da longa duração, os aspectos mais cinzentos da Revolução Industrial e do Capitalismo... Ao invés manifestou-se o desejo de evasão e diversão ininterrupta que adiou a resolução dos "males da civilização" assim degenerada na Grande Depressão económica dos anos 30, e votada a uma nova Guerra Mundial (1939-1945)...

Mas voltando à mensagem do filme e procurando resumi-la: "Todos fazemos parte desse mecanismo, todos temos uma função e todos deveríamos ter um ou mais objectivos de vida... Uma pessoa que perde os seus objectivos equivale a uma máquina avariada que precisa de ser concertada... Esse "concerto" é o maior pecúlio e missão da Humanidade... O principal mecanismo do ser humano deveria ser o da solidariedade e entre-ajuda". Essa acaba por ser a grande "invenção" de Hugo... Com efeito, a sua descoberta pessoal sobre o seu mecanismo existencial, enquadramento e objectivos, funciona como elemento regenerador do universo de pessoas com as quais se relaciona...
Solidariedade, afecto e entre-ajuda são a raiz de toda a épica e magia... O simbolismo sustenta a ideia... Uma chave em forma de coração perfaz grande parte da busca de Hugo!
Tudo isto em Hugo 3D, um filme que supostamente é um documentário na forma de drama sobre as origens do cinema, na pessoa e perspectiva desconhecidas de um dos seus mentores originais Georges Méliès...

A terminar fica a referência ao modo como a cultura alimenta o nosso universo onírico, personificada na amizade que se estabelece entre Hugo e Isabelle... A 7.ª arte é indutora de sonhos, ideias e valores, um papel que anteriormente estava reservado à literatura... Hugo 3D aborda essa transição factual de funções entre a "metragem" e a "poética"... Contudo ao longo de todo o filme é implícito o ideal – rabínico – "mais cultura mais vida!"...
Hugo 3D é uma obra de arte que funde aspectos do cinema, da literatura, da pintura e da música... Um filme a não perder por todos os motivos.


CA


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